Confesso: durante muito tempo, quando eu pensava em treinar glúteos, pensava quase exclusivamente em estética. Um bumbum mais firme, mais desenvolvido, aquela silhueta que fica linda nas fotos. E olha, não tem absolutamente nada de errado em querer isso — eu quero até hoje.
Mas um dia, pesquisando sobre saúde, esbarrei em uma explicação que me fez parar tudo. Percebi que eu estava olhando para os meus glúteos de um jeito muito limitado, porque esses músculos fazem muito mais do que deixar o corpo bonito.
Eles estão presentes em praticamente tudo o que fazemos no dia a dia. Ajudam a estabilizar o quadril e a pelve, têm um papel enorme na produção de força e fazem parte de uma estratégia muito maior de saúde ao longo da vida. E essa descoberta mudou completamente a forma como passei a enxergar meu treino — espero que mude a sua também.
Primeiro: quais são os músculos dos glúteos?

Antes de falar dos benefícios, vale entender o básico — porque “glúteo” não é um músculo só, é um time.
O complexo glúteo é formado por três músculos: glúteo máximo, glúteo médio e glúteo mínimo.
O glúteo máximo é o maior dos três e é o principal responsável pelo volume que a gente vê no espelho. Ele entra em ação em movimentos como levantar de uma cadeira, subir escadas, correr e saltar — qualquer coisa que exija força dos membros inferiores.
Já o glúteo médio e o glúteo mínimo cuidam da movimentação do quadril e são essenciais para estabilizar a pelve, principalmente quando o corpo precisa se sustentar sobre uma perna só.
Pense em algo simples: caminhar. A cada passo, em algum momento, você está com todo o peso do corpo sobre uma única perna, e são esses músculos ao redor do quadril que controlam esse equilíbrio. Só isso já mostra uma coisa:
O glúteo não é um músculo decorativo. Ele participa de movimentos fundamentais para a nossa capacidade de nos movimentarmos.
O glúteo é importante para produzir força

Essa foi uma das informações que mais me surpreendeu quando comecei a pesquisar. O glúteo máximo é um dos principais responsáveis pela extensão do quadril — um movimento que está presente em praticamente tudo o que fazemos. Toda vez que você:
- levanta de uma cadeira;
- sobe uma escada ou uma ladeira;
- corre;
- faz um agachamento;
- pega algo do chão;
- ou faz qualquer movimento que exija força das pernas,
os músculos que atuam sobre o quadril — incluindo os glúteos — entram em cena. Em resumo: desenvolver força nos glúteos melhora a capacidade do corpo inteiro de produzir força em movimentos que envolvem o quadril e as pernas.
Ou seja, não estamos falando de um treino isolado para “uma parte do corpo”. Estamos falando de uma região central para a nossa capacidade funcional.
Os glúteos e a estabilidade do quadril — sem exageros
Aqui preciso ser sincera com você, porque tem muita informação exagerada circulando por aí. Você já deve ter lido frases como “glúteos fortes corrigem a postura” ou “treinar glúteos resolve dor nas costas”.
Existem conexões reais entre a força dos músculos do quadril e o funcionamento do corpo, mas essas frases simplificam demais uma realidade bem mais complexa. A postura é resultado de uma interação entre vários fatores:
- músculos;
- articulações;
- mobilidade;
- controle motor;
- hábitos;
- características individuais.
Não existe um único músculo capaz de “corrigir” a postura sozinho. O que dá para afirmar, com mais precisão, é o seguinte:
Fortalecer os glúteos pode contribuir para uma melhor capacidade de estabilização e controle do quadril e da pelve, dentro de um programa de treinamento equilibrado.
O controle da pelve influencia como o corpo realiza certos movimentos — mas isso não faz do treino de glúteos uma solução universal para dor ou problema postural. Significa apenas que eles fazem parte de um sistema muito maior. E, para mim, essa explicação mais honesta é bem mais interessante do que qualquer promessa milagrosa.
E a coluna? Os glúteos têm alguma relação?
Vale fazer uma distinção importante aqui: os glúteos não são músculos da coluna. Dizer que “treinar glúteos fortalece a coluna” como se fosse uma relação direta não é correto. O que existe, na verdade, é uma relação funcional.
Quadril, pelve e tronco trabalham em equipe durante boa parte dos nossos movimentos. Ter força e controle bons nos músculos do quadril pode tornar essa execução mais eficiente e contribuir para a capacidade funcional do corpo como um todo. Uma forma mais precisa de explicar seria assim:
Os glúteos fazem parte do sistema muscular que ajuda a controlar o movimento do quadril e da pelve — regiões que trabalham junto com o tronco em inúmeras atividades do dia a dia.
Não é uma relação direta com a coluna. É uma relação de funcionamento integrado do corpo.
O que acontece quando você passa o dia sentada?
Essa parte provavelmente vai fazer muito sentido pra quem, como eu, trabalha em frente ao computador — e somos muitas. Passar muitas horas sentada significa passar boa parte do dia com pouca atividade muscular e pouco estímulo para manter força e capacidade funcional.
Isso não quer dizer que o glúteo “desliga”. Essa é outra frase popular nas redes sociais, mas que é exagerada. Você já deve ter ouvido: “ficar sentada desativa o glúteo”. Não é bem isso que acontece. O problema real é que longos períodos parada reduzem a quantidade de movimento e de estímulo que o corpo recebe ao longo do dia.
E a solução não precisa ser complicada. Você pode:
- levantar-se regularmente;
- caminhar mais;
- subir escadas;
- fazer pausas ativas durante o trabalho;
- incluir atividade física na rotina;
- treinar força com consistência.
Pequenas mudanças, repetidas ao longo do tempo, fazem uma diferença enorme para uma vida mais ativa.
Treinar glúteos também é treinar para envelhecer melhor
Para mim, essa é uma das partes mais importantes deste texto — e uma das que menos aparece quando o assunto é glúteo nas redes sociais.
À medida que envelhecemos, preservar massa muscular e força se torna cada vez mais importante para a nossa capacidade funcional. Pense em coisas simples do cotidiano:
- levantar de uma cadeira;
- subir escadas;
- caminhar;
- carregar as compras;
- pegar algo do chão;
- manter o equilíbrio;
- dar conta das tarefas de casa.
Tudo isso faz parte da nossa autonomia. E essa autonomia não precisa ser vista como algo que simplesmente desaparece com a idade — ela pode ser construída e preservada.
O treinamento de força é uma das ferramentas mais importantes para ajudar a manter força e massa muscular ao longo do envelhecimento. Talvez uma das melhores razões para treinar glúteos seja justamente algo que não aparece no espelho:
A capacidade de continuar usando bem o seu corpo por toda a vida.
Músculos, glicose e saúde metabólica — uma conexão que importa
Se você já leu meu artigo “Por que mulheres devem cuidar do açúcar no sangue mesmo sem ter diabetes”, deve se lembrar de um ponto que destaquei por lá: os músculos estão entre os principais tecidos responsáveis por captar e usar a glicose do corpo.
Quando você se movimenta e os músculos se contraem, eles aumentam a captação de glicose — inclusive por caminhos que não dependem só da insulina. O treinamento de força regular também pode ajudar a melhorar a sensibilidade à insulina.
Isso não significa que “ter glúteos grandes previne diabetes” — seria uma extrapolação incorreta. O que podemos afirmar é que:
O treinamento de força e a manutenção de massa muscular fazem parte de uma estratégia ampla de saúde metabólica.
E o glúteo máximo, sendo um dos maiores músculos do corpo, participa de movimentos que envolvem grandes grupos musculares das pernas. Então, quando você treina glúteos, não está trabalhando só para mudar o formato do corpo. Você está treinando músculos que fazem parte de um organismo inteiro.
Essa conexão entre força, movimento, massa muscular e saúde metabólica foi uma das coisas que mais mudou minha forma de enxergar o treino.
Preciso fazer musculação para fortalecer os glúteos?
Não necessariamente. Existem várias formas de treinamento de força que trabalham os glúteos:
Agachamentos e suas variações

Hip thrust — um exercício muito usado justamente para trabalhar a extensão do quadril, presente em quase todo programa voltado ao desenvolvimento dos glúteos.

Levantamento terra — exige participação forte dos glúteos e dos posteriores de coxa, além da musculatura de estabilização do tronco.

Afundos e suas variações — pedem força e controle das pernas e podem gerar uma demanda significativa dos glúteos.

Abduções de quadril — trabalham especialmente a movimentação lateral e a estabilização do quadril, incluindo o glúteo médio e o mínimo.

Uma observação importante antes de continuar:
O melhor exercício não é necessariamente aquele que mais aparece nas redes sociais ou o favorito de alguma influenciadora. É aquele que você consegue executar com boa técnica, progredir ao longo do tempo e encaixar com segurança na sua rotina e no seu nível de treino.
E se eu quiser aumentar o bumbum? A parte estética importa, sim
Aqui podemos falar sem rodeios: sim, o treinamento de força pode contribuir para a hipertrofia dos glúteos. E querer um bumbum mais desenvolvido é um objetivo totalmente legítimo. Não precisa disfarçar isso de outro motivo.
Você pode treinar porque quer se sentir mais bonita, porque quer usar uma roupa específica, porque quer mudar o formato do corpo, ou simplesmente porque gosta da estética de um glúteo mais desenvolvido. Não tem nada de errado nisso.
O importante é entender que resultados de hipertrofia não acontecem da noite para o dia. Ganhar massa muscular exige um estímulo de treino adequado e progressivo, recuperação suficiente e alimentação compatível com o objetivo — e a ingestão adequada de proteína entra nessa conta.
Tem também outro fator que a gente precisa respeitar: cada corpo responde de um jeito. Genética, estrutura corporal, nível de treino, alimentação, sono, recuperação e consistência ao longo do tempo influenciam os resultados.
Por isso, desconfie de promessas de transformação radical em poucas semanas. Resultados reais de composição corporal são construídos com meses e anos de consistência.
Mais treino não significa mais resultado
Esse é um mito de academia que precisa cair. O treino dá ao corpo o estímulo necessário para se adaptar. Depois desse estímulo, o organismo precisa de recuperação para de fato realizar essa adaptação.
Um programa de treinamento bem estruturado precisa considerar:
- frequência;
- volume;
- intensidade;
- progressão;
- recuperação.
Treinar glúteos todos os dias não significa, necessariamente, resultados melhores. Na verdade, quando volume e intensidade não são bem planejados, o excesso de treino pode atrapalhar a recuperação.
É muito melhor encontrar uma rotina que você consiga sustentar por meses e anos do que seguir um programa extremamente intenso por três semanas e depois abandonar por cansaço, falta de tempo ou lesão.
Consistência vale muito mais do que intensidade momentânea.
O que eu realmente quero conquistar quando treino glúteos
Hoje, quando penso em treinar glúteos, ainda gosto da ideia de construir um corpo que eu acho bonito. Isso não mudou e não precisa mudar. Mas deixou de ser o único motivo.
Quero força. Quero estabilidade. Quero continuar subindo escadas com facilidade daqui a dez, vinte, trinta anos. Quero conseguir levantar da cadeira sem dificuldade quando for mais velha. Quero carregar minhas próprias compras. Quero preservar minha massa muscular enquanto emagreço, cuidar da minha saúde metabólica de um jeito que também apareça no espelho — e, sim, quero olhar para o espelho e gostar do que vejo.
Por que eu precisaria escolher entre estética e saúde? Eu não preciso. E nenhuma de nós precisa.
O corpo bonito também pode ser um corpo forte
Talvez a gente tenha aprendido a enxergar o exercício de um jeito muito limitado: treinamos para emagrecer, para caber em uma roupa, para mudar uma parte específica do corpo que nos incomoda. Todas essas são razões válidas para começar.
Mas o exercício está fazendo muito mais por nós — de forma silenciosa e consistente, semana após semana. Está ajudando a construir um corpo resistente, forte, um corpo que consegue acompanhar a nossa vida. E talvez essa seja uma das melhores definições de corpo bonito:
Um corpo que não apenas parece forte, mas que é capaz de fazer coisas.
Eu ainda quero um bumbum bonito. Mas agora quero, com a mesma intensidade, um corpo forte o suficiente para me acompanhar durante toda a minha vida.
❓ Perguntas frequentes
Treinar glúteos melhora a postura? Pode contribuir para a força e o controle dos músculos do quadril e da pelve, mas a postura é resultado de uma interação complexa entre músculos, articulações, mobilidade, controle motor, hábitos e outros fatores individuais. Não existe um único músculo capaz de “corrigir” a postura sozinho.
Treinar glúteos fortalece a coluna? Os glúteos não são músculos da coluna, mas participam do controle do quadril e da pelve, regiões que trabalham em conjunto com o tronco durante muitos movimentos. Por isso, fortalecer os glúteos pode fazer parte de um programa voltado à força e à capacidade funcional — mas não deve ser visto como tratamento específico para problemas de coluna.
Preciso treinar glúteos para emagrecer? Não especificamente. O emagrecimento envolve, principalmente, um balanço energético negativo mantido ao longo do tempo. Ainda assim, o treinamento de força é uma ferramenta importante nesse processo, porque ajuda a preservar ou desenvolver massa muscular e melhorar a composição corporal.
Quantas vezes por semana devo treinar glúteos? Não existe uma frequência universal. Ela depende do programa completo de treino, do volume, da intensidade, do nível de experiência e da capacidade individual de recuperação. O mais importante é ter um programa adequado e conseguir mantê-lo com consistência.
Caminhar fortalece os glúteos? Caminhar utiliza os músculos das pernas, incluindo os glúteos, mas o estímulo é diferente do treinamento de força estruturado. É excelente para a saúde geral e para aumentar o nível de atividade física — mas quem quer desenvolver força e hipertrofia nos glúteos se beneficia de um programa específico de treino de força.
Treinar glúteos ajuda a envelhecer melhor? Sim. O treinamento de força, de modo geral, ajuda a preservar massa muscular e força ao longo do envelhecimento, contribuindo para manter a capacidade funcional e a independência. Os músculos do quadril e das pernas têm papel importante em caminhar, levantar-se e subir escadas.
Preciso de academia para treinar glúteos? Não necessariamente. Existem exercícios que podem ser feitos em casa, usando o peso do próprio corpo ou equipamentos simples. Mas o acesso a cargas progressivas, mais fácil em academias, pode facilitar a progressão do treino ao longo do tempo.
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